15 maio 2014

'um dia arranjo-lhe um nome'

Passaram-se cores, cheiros e abraços. Dias em que se escreve apenas no ar. Desenho histórias como quem faz uma cama de lavado. Esta noite outra vez ele. Um dia arranjo-lhe um nome conforme. Ninguém pode existir apenas no sonho. Ele é. Ou era; na verdade já não é mais. Quando a noite cai lá fora ele, por vezes, vem. Ou até durante o dia. Sim, é isso: às vezes a noite vem a mim quando é ainda azul claro lá fora. Que dias são esses em que ele traz a noite para junto de mim? Às vezes penso que são noites compridas, ou então dias que tardam em chegar. Um dia arranjo-lhe um nome. Um nome diferente do que ele já teve.
Em tempos, o nome dele era suficiente. Só tem nome quem eu posso chamar. Agora que já não posso mais ele se transforma em figura lá longe. Felicidade ou dias felizes que já não são corrompem o nome. A saudade o transformou em olhar carrancudo, assim sério, com ar de juiz. Que diria ele do que agora escrevo? Faltam artigos, palavras e métrica. Principalmente os tempos verbais. Mas nós nunca chegamos a ser verbo, e o futuro do pretérito foi sempre o nosso tempo.
Não gosto de nos comparar a verbos. Prefiro melodias.
Um dia, quando ele ainda tinha nome, escrevi-lhe: Somos Vivace ou Allegro ma non tropo, que o tempo do Grave e do Adagio já lá vai e foi guerra que não soubemos travar. Sei que nunca chegaremos a Prestíssimo (o que em nada me transtorna. Sei-nos melhor assim). Se pudesse escolher, seríamos um lugar a meias entre Vivacissimo e Presto.
Existe algo de muito bonito em sinfonias imperfeitas.
O amor, esse, é gerúndio,
vai-se fazendo, piano piano
ou até ao metrónomo se cansar.

Nessa altura julgo que ainda tínhamos os dois um nome. Eu achava que não, mas na verdade nós é um nome. Para podermos ser nós todo o mundo lá fora tinha de deixar de existir. Teríamos que arrancar as palavras às pessoas e as pessoas às palavras e ainda rasurar todos os rostos.

Voltei às palavras. A palavra foi tudo o que provámos. Não há nada de bom em esquecer o cheiro da carne. Se fosse eu a inventar o universo, carne deixaria de ser um lugar para ser o verbo mais importante. Eu carne, tu carne, ele carnes. Carne e carne - igual na primeira e na segunda pessoa do singular. Conjugaríamos a primeira pessoa do plural como melhor nos aprouvesse. Podia até variar com a estação do ano. Do que eu pude perceber, o corpo dele tem cheiros diferentes. Gostei especialmente do cheiro que a Primavera trazia nele. Passeava-se pelo meu corpo, como as andorinhas se passeiam, de manhãzinha, pelas paredes do meu quarto. E na hora de ir deitar éramos os dois um só. Ou só um, que são coisas diferentes. Não sei se isto é possível. Se lhe tirar o nome então talvez seja possível. Às vezes gosto de tirar o nome às coisas. Não sei ao certo o que desaparece primeiro, se as coisas se o nome. Agora que me obriguei a pensar nisto, julgo que primeiro desaparecem as coisas. O nome que dele desapareceu perdura em mim.
Já não o sei de desenhar de cor. A voz, assertiva, ora suave ora com tom grave, mas sempre séria, há muito que me saiu da lembrança. Às vezes esqueço o que não quero esquecer; parece até que quanto mais quero lembrar mais se me fogem as coisas. Mas a voz não era coisa muito importante nele. Era assim meio neutra.